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(Source: SOCIEDADE-ESCROTA)
Pessoas são apenas interessantes ou monótonas.
Enquanto o tempo passa, a definição do “belo” ou “desejável” muda, e com ele a necessidade de ter ou ser.
(Source: clover-vintage)
(Source: shizofrenia)
Sinto a noite escurecer minha visão antes que eu possa voltar a me mexer. O cansaço se apodera do meu corpo antes que eu possa enviar ao meu cérebro a informação de que passei o dia inteiro sem fazer nada. Mas isso não muda o fato de que estou exausta. Talvez não fisicamente, mas mentalmente. Emocionalmente. Meus sentimentos estão tão conflitantes que já não sei o que faço com eles. Tento revestir-me com uma camada de aço, quando lembro que já não sei mais como se faz esse tipo de coisa. Como se deixa de sentir de uma hora para outra. Quando a gente pensa que alguém não pode ser mais importante do que já é, eu lembro que ainda tenho você. A cada minuto do dia eu sou obrigada a conviver com a sua eminente existência. Não só sua existência, mas também com a sua falta, penso comigo mesma.
E, pelo que parece ser a trigésima vez, me pergunto se eu não deveria ter feito algo diferente durante essa noite. Chego à conclusão de que sim, afinal, são quase cinco horas e eu ainda não pude ir para casa. Não agora. E, talvez, não enquanto eu não ouvir sua voz e ter certeza de que tudo está bem. Só que não está, a voz da minha cabeça sussurra. E, então, de forma lenta e tortuosa, minha mente traz à tona todos os acontecimentos da noite. Você entrando nessa maldita festa de aniversário. As batidas do meu coração parando e depois pulsando loucamente. A vontade de correr até os seus braços. E… E a mão que me prendia com mais medo do que afeto. Repassando a cena, acho que todos foram capazes de perceber o quanto eu queria apenas me jogar nos seus braços. Todos, menos você. Eu vi o exato segundo em que seus olhos encontraram os meus e, então, viram a mão segurando a minha.
Foi o segundo necessário para que alguma garota que eu não reconheci se pendurasse no seu pescoço e meu riso desaparecesse pela noite inteira.
- Então… Você ainda não foi embora.
Não preciso me virar para saber que você está a alguns passos de distância de mim, porém, como sempre, meus olhos levam meu corpo a girar apenas para poder te ver mais um pouco.
- Não, ainda não. – percebo que minha garganta está seca demais para dar-lhe alguma resposta mais elaborada.
- Eu já queria ter ido a algumas horas. A Paola já estava me enchendo o saco… – então esse é o nome da vagabunda? Interessante saber.
Não, espera. Não é interessante, porque você já não me interessa mais.
- E por que não foi ainda? – tento convencer a mim mesma de que só estou perguntando para não ser grossa, e que isso nada tem a ver com o fato de que eu preciso te prender aqui por um tempo a mais.
- Ainda tinha a esperança de que você ficasse a só, em algum momento… Eu tenho sorte, você sabe. – um sorrisinho aparece no canto dos seus lábios. – Uma hora aquele troglodita ia ter que largar do seu cangote.
- Olha quem falando em ser um troglodita.
- Pelo menos eu não ficava grudado no seu cangote!
- Já parou para pensar que talvez esse seja o problema?! – o grito saí da minha garganta antes que eu possa contê-lo.
O silêncio se alastra pela pequena sacada e eu sinto o arrependimento circundar meu corpo. Você não deveria tomar conhecimento do quanto essa sua indiferença anda me matando. Do quanto eu fico mal toda vez que você age como se fosse meu amigo. A verdade é que eu nunca esperei por isso… Você aceitou todo esse meu namoro de uma forma muito melhor do que eu esperava. Você aceitou, e isso, por si só, é muito mais do que eu havia planejado. Depois de esbravejar, gritar, não olhar para a minha cara durante alguns dias… Você apenas me parou no meio do pátio e conversou comigo como se nada tivesse acontecido.
Tudo bem, de vez em quando eu ainda pego você olhando para ele com raiva e se afastando antes que seja obrigado a trocar algumas palavras com ele. Eu sei que isso não passou. Mas você finge tão bem que eu tenho vontade de te sacudir e dizer que ainda sou eu. Que eu ainda te quero. E que você deveria me querer também.
- É claro que eu já pensei nisso, Anna. Mas você se adiantou e arrumou alguém para fazê-lo antes que eu desse um passo.
- Não fale como se eu não tivesse esperado tempo bastante, Henrique. – admito que minha voz está dura demais, até mesmo para mim.
Um suspiro. Um único suspiro carregado de dor.
- Eu sei, Anna. Eu sei que é culpa minha. Mas eu não posso deixar de me sentir exausto por não poder dar um soco na cara daquele imbecil. – não posso deixar de rir com esse comentário, tão típico seu que quase pude dizê-lo junto a você.
- Olha só, pelo menos agora você sabe como eu me sinto, não é? Mas eu me contentaria em quebrar a unha ou puxar o cabelo.
- Ana.
Não se aproxima. Não fica atrás de mim como se isso não fosse nada. Não toca na minha mão como se o mundo dependesse disso. Eu tenho vontade de mandar você se afastar, mas… Não dá. Nunca deu. Não quando você fala meio rouco e chega cada vez mais perto. Não quando eu percebo que a música lá dentro aumentou, e ninguém seria capaz de ouvir se eu gritasse. Não quando eu me dou conta de que somos apenas nós, perdidos em um mini telhadinho que nunca seria achado por pura coincidência.
E coincidências não combinam com a gente. Só o destino.
- Por favor… Só me diz o porquê disso. Você sabe que não quer estar com ele. – eu solto um riso baixo, mais pelo nervosismo do que por achar graça.
- E posso saber quem foi que te disse isso?
- Você.
Eu me viro para protestar antes de perceber meu erro. Agora não há nada entre nós dois, e nada pode ser pior que isso. Sinto aquele sorriso estúpido se formando no seu rosto, e eu mesma tenho vontade de rir da minha própria estupidez. Porque, agora, seus braços se fecharam em torno de mim como quem diz que não há para onde fugir. E, parte de mim, talvez a mais estúpida de todas, apenas se recusa a se mexer. Há tanto que eu poderia fazer, e tão pouco que eu realmente queira. Esse é o pior de tudo. Estar assim, no meio dos seus braços, me faz lembrar porque eu tive tanta dificuldade para ir embora.
E, aparentemente, explica também a minha facilidade para voltar.
- Eu nunca disse que não queria estar com ele.
Talvez, se eu continuasse falando, consiga manter nossas mentes longe de… outros assuntos.
- E você quer?
Droga.
Um “não” se forma de uma maneira tão rápida que eu quase o solto sem pensar nas conseqüências. Mas eu não posso. Não quando eu sei o que isso vai significar. Pela primeira vez na vida, eu percebo que poderia estar plenamente feliz se não fosse apenas por uma coisa: a sua existência. Se não fosse por isso, tenho certeza de que o sol brilharia a cada manhã. Mas não, você existe. E faz questão de me lembrar disso cada vez que eu ameaço tentar esquecer.
Passou pela minha cabeça mentir, também. Dizer que sim, que já não me importava o que acontecia entre a gente. Mas há algo nos teus olhos, algo na maneira como eles sempre parecem prontos para ficar horas apenas me olhando que… Que apenas não me permite mentir pra você. E isso é uma merda. Nesses momentos eu precisava desesperadamente poder mentir, nem que fosse só um pouquinho, só para você pensar que eu não me importava mais tanto assim.
Mas os malditos olhos esverdeados não me permitiam.
Então, eu apenas abaixei a cabeça e esperei que o silêncio falasse por mim. Em algum momento, acho que você percebeu que eu apenas não iria falar, e resolveu começar a rir e comemorar internamente pela batalha ganha. Eu te deixei ter esse gostinho de vitória porque, honestamente, não há nada mais que eu possa fazer.
- Tudo bem, não precisa responder, Anna… Seu silêncio já me basta.
E, quando eu penso que não poderia ficar pior, sinto (mais do que vejo, já que minha visão estava completamente embaçada) você se aproximando, até que o mínimo espaço entre nós gritava para ser preenchido.
Tudo bem, eu admito, havia uma parte minha aguardando por isso fazia algum tempo já… Mas havia outra que… Não sei.
Só me parecia errado.
- Henrique…
- Quê?
- Eu realmente gostaria que você não fizesse isso…
- Eu realmente não acredito que você não queira.
E assim ficamos por alguns segundos, os olhos presos e as respirações contadas. Queria acreditar que não era nada além de paixão, que o que tínhamos era apenas físico, como costumava ser. Mas não dava para negar que a respiração entrecortada e o aperto no coração não faziam parte dos planos. É horrível, porque eu olho para você e não penso em nada que eu queira mais nesse mundo. Eu mesma tento me proibir de ter esses pensamentos, mas eles me escapam. E, por tudo que é mais sagrado nesse mundo, eu poderia matar você. Por que logo agora? Por que você insiste em voltar? Se ficar longe é tão melhor, por que não continuar lá até que eu esteja emocionalmente disposta a lidar com você cara a cara?
Ou seja, nunca.
E pior ainda é você não se afastar. Não mexer um único fio de cabelo para me convencer, porque a sua prepotência tem certeza que eu vou voltar. Eu estou convencida de que não. Pelo menos é isso que eu digo à mim mesma. Só mais um tempinho aqui nos teus braços… Só para que eu possa me lembrar como é sentir-me segura. Mas você continua me encarando com essa porcaria de sobrancelha erguida. Você continua com esse sorrisinho vitorioso nos lábios, porque sabe o quanto minha cabeça parece com um furacão, nesse exato momento. E você – sem surpresa nenhuma – não abre a boca para me pedir para ficar. Sempre sou eu tendo que adivinhar seus pensamentos. E eu aqui, quase te implorando por qualquer frasezinha, qualquer coisa frouxa, porque qualquer palavra sua me faria desistir da minha partida.
Eu me admito fraca, se é isso que você quer. Admito que eu nunca estive em um estado físico tão debilitado quanto agora, quando qualquer toque faz com que eu desmorone um pouco mais. O seu me arde, como fogo. O dele me gela. E eu, honestamente, não sei qual é pior. Só sei que eu preciso ir embora antes que eu enlouqueça.
Mais do que já estou.
- Henrique, dá licença. – eu mais imploro do que peço, tentando me desvirtuar dos seus braços.
- Não.
- Olha só, Henrique… Eu sei que isso pode não ser nada para você, mas isso é sério, tá bem? Isso é realmente sério. Você leva traição como uma brincadeira, mas eu não. E eu tenho um namorado agora, um namorado que me leva a sério, e deve estar me procurando nesse exato momento. Então, se você não se importa… Sai do meu caminho. – o duplo sentido dessa frase ficou no ar, enquanto eu tentava novamente (e sem sucesso) sair do seu abraço.
- Acontece que eu me importo, Anna. E agora?
Precisei de todo o meu autocontrole para não me atirar nos seus braços nesse exato momento.
- Agora você sai da minha frente e deixa eu voltar para qualquer lugar onde eu possa respirar normalmente.
- Que poderia ser, tranquilamente, do lado daquele viadinho… Pode dizer, Ana. Me responde isso: ele já fez com que você perdesse o ar? Você já tremou só por saber que ele estava por perto? – você vem se aproximando e eu sinto minhas mãos tremerem de leve. – Vocês são como nós? O tipo de casal que pode não estar junto, mas vai ser pra sempre um casal? Você conhece a voz dele de longe? Pode sentir a presença dele? Porque, Ana… Eu sei que você sentiu a minha, no momento em que eu entrei naquela sala.
- E que diferença isso faz, Henrique? Que diferença isso faz?
- Toda a diferença, pra mim… É a diferença crucial entre desistir ou persistir. – as mãos que estavam me prendendo contra a parede se soltam e ficam no alto, como quem se redime por um erro. Mas nós não fomos um erro. Não em absoluto. – E aí, Ana. Como vai ser?
Lentamente, você dá um passo para trás. Então, é isso. Você vai me forçar a escolher, mesmo sabendo que essa é uma guerra totalmente injusta. É injusta porque você sabe que parte minha estará sempre aqui, sempre implorando por você.
E é por isso que eu diminuo a minha pena perpétua quando passo minhas mãos pelo seu pescoço e te beijo como se nada no mundo importasse. Porque não importava. Não enquanto você estava aqui, revivendo em mim partes que eu já pensei terem morrido faz tempo. Enquanto você volta as mãos para a minha cintura e me aperta e faz com que o mundo volte a girar. Porque nada mais faz diferença, enquanto você permanecer. E todos os outros se tornam apenas isso… Uma areia no meio do deserto. Meu deserto. Só você faz isso comigo. Só você me faz querer gritar e chorar ao mesmo tempo, expandir meu peito para que não haja dúvidas do que eu sinto. Você é a onipresença mais dolorosa que a minha vida já teve, a cada passo lembrando o desapego. Não importa o quanto eu tente, nada faz você desgrudar de mim.
E agora? Quanto tempo será preciso até que suas marcas saiam da minha pele? Quanto tempo levará para que seu cheiro desgrude do meu cabelo e das minhas roupas? Para sempre?
Tudo bem, eu penso. Pode ficar comigo para sempre, desde que você continue a me beijar assim, a passar as mãos pelo meu corpo e me puxar para mais perto de você, como se qualquer mínima distância pudesse nos afetar por toda a vida. Como se um milímetro queimasse. E pouco me importa se são os átomos e não nós quem nos tocamos – nesse momento, tudo o que eu sinto é você.
E só Deus sabe até onde nós teríamos ido se não fosse por uma voz gritando o meu nome.
- Meu Deus, Henrique! – eu meio que gritei sussurrando.
- Porra! – é a última coisa que você grita antes que eu me afaste e você se ponha na minha frente, numa posição meio que de proteção. Quase ri da sua ingenuidade, por não perceber que a única coisa que eu deveria temer, nessa sacada, é você.
Mas não rio. Isso não tem graça. Nenhum pouco.
- Anna! Finalmente. Eu estava te procurando faz tempo e… – ele limpa a garganta como quem viu algo que não gostou. Considerando a cena anterior, isso seria algo plausível. Mas agora? Sinceramente, eu não sei o que pode estar incomodando ele. – Henrique. Então, você resolveu roubar ela de mim por uns instantes?
Droga.
- Bernardo. – um cumprimento mais mortal do que amistoso. – Digamos que eu e ela tínhamos alguns assuntos pendentes. Nada muito pessoal, espero que você não se importe. – graças a Deus, ele é burro o suficiente para talvez não ter reparado na ironia da sua voz.
- De jeito nenhum. Eu sei como vocês dois são grandes… ahn, amigos.
Mas esse “amigos” não passou despercebido, para nenhum de nós dois. E eu sinto uma mão apertar a minha com tanta força que, mais ou pouco, iria machucar. Mas não machuca. É um toque áspero e extremamente quente. Seria estranho, se eu não estivesse tão acostumada. Mas eu estava.
E só havia uma pessoa no mundo que poderia ficar de mãos dadas comigo sem que eu odiasse.
Agora a ironia da palavra amigos ficou clara para mim.
- Isso… – eu me sobreponho na conversa antes que os dois tentem se matar. – Apenas amigos.
O olhar esverdeado e zombateiro que recebi de volta não tinha nada de “apenas amigos”. Ana F (salt-waterroom)
- Billie & Blue // 21st Century Breakdown
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